sexta-feira, 6 de março de 2009

Cegueira

Ventos passados me assentiram, Coloquei então as roupas na mochila e a mochila às costas, pesada como de costume. Busquei tatear os livros pelo quarto escuro, muitos já não estavam lá. Naquela noite, muita coisa aconteceu, e de fato, mesmo que quisesse, não seria capaz de me recordar de todos os detalhes e a forma complexa de como tudo havia se dado.
Haviam rasgado as poltronas, deixando à mostra a espuma, havia muita coisa quebrada pelos cantos, tintas borravam as paredes antes tão brancas quanto a neve, por esse enfadonho esclarecimento me retive aos meus pensamentos.
Sentei-me à beira de uma pseudo cama que insistia em se manter de pé, tentei
manter as idéias claras, mesmo que isso me parecesse impossível.
Todos os sentimentos me avassalavam, comprometendo minha pouca sanidade e minha fraqueza, escondia-me átras de objetos, de paredes, tentando me assegurar que tudo não passava de uma idéia vaga, que nada iria me atingir.
Acordando de um pesadelo estranho como várias vezes me aconteceu no passado, após um dia exaustivo e sem grandiosos presságios noturnos, apenas um susto.
É claro que nossos desejos por mais intensos se distanciam de nossa realidade, simples e
destruída, haveria nenhuma ou pouca solução para o que se passava às minhas costas e para o que estaria às minhas vistas, se não fechasse os olhos diante do que se passava.
Concordei em fugir dali, já que nada mais me pertencia, roubaram minha existência, ou pelo menos boa parte do lugar que existi anteriormente, peguei o pouco que me restava e comecei por vagar em direção a qualquer lugar que me fizesse esquecer daquelas cenas, o que aconteceu após minha retirada é que realmente importa aqui, até agora foi apenas um desastroso fato cotidiano, contíguo.
Parti então, para o mais longe que pude, bebendo o máximo que pude e me exaurindo o suficiente para não poder voltar para lugar algum, prostrei-me em uma calçada suja, indagando àquelas perguntas decisivas e aleatórias, falando bobagens sozinha, passei a noite vagando, buscando respostas que sabia que não iria encontrar, depois do porre a cabeça começou a rodar, acordei no dia seguinte em um quarto estranho, prateleiras, armários e livros que não eram os meus. Abri a porta devagar, queria me certificar que não estava enlouquecendo, não que eu já não estivesse, não quis dizer isso, mas há muitas coisas que ficaram sem explicação. Vi um rosto desconhecido, ele chamou pelo meu nome, como ele poderia saber?
Cheguei mais perto, estava indefesa naquele lugar, olhei ao redor, presa como um bicho, tudo trancado, fobia, escuridão, facas surgiram de repente, braços cortados, os meus, os dele, correr? fugir? como? Para onde?
O que sucedeu foram fatos isolados que não me recordo, sei apenas que vaguei pelas ruas por um longo tempo, juntei o pouco dinheiro que ainda me restava, comprei uma passagem e parti para qualquer lugar, parti para não ter do que lembrar, para fazer de tudo uma mera loucura,
apenas mais uma noite como outras tantas, daquelas que se sai sem destino, de bar em bar, escrevendo em guardanapos, lustrando taças, riscando traços, procurando rostos,
procurando um pouco do que respirar, uma brisa, sentir o vento esvoaçando os cabelos,
para sentir essa pulsação consumindo o rosto.

4 comentários:

Gabriela Domiciano disse...

Show!!!!

Mt bom esse texto!!
Me perdi junto com a personagem!!

Obrigada pela visita!!!

=D

MARCOS disse...

Cada vez que te vejo,
é como eu vejo
seu desejo.
Estampado em você,
está um pedaço igual ao meu,
correndo e se jogando
de encontro ao que almejo.
E quando tudo separa,
ou quando vem a solidão,
me esforço,
como agora,
para ser mais sim do que o não.
Agite-se pelo consolo,
busque a mão que conforta,
veja com o que realmente importa,
e a volta será bem menor
que os 18.000 metros da lagoa.


PS. eu hein? ainda bem que a vida anda enquanto a gente descança.
behappy!
Bzão

Marcela' disse...

Nossa, esse texto ficou lindo! :')
Baci.

angelo alfonsin disse...

Existencialismo puro, a vida é isso de lá pra cá, daqui para ali incessantes, do nada ao nada sem escalas.
O resto é religião, a supertição infantil dos adultos.

beijo